Vá ler um livro, mas não desligue a TV

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Vá ler um livro, mas não desligue a TV

Mensagem por sandro.an em Qua Out 02 2013, 08:13

Alguns talvez achem o texto longo, mas vale a leitura...

Danilo Venticinque, na revista Época escreveu:
Vá ler um livro, mas não desligue a TV

As séries de televisão, os games e a internet podem trazer ótimas surpresas para quem gosta de bons textos

Danilo Venticinque, na revista Época

Em 2004, quando muitos jovens já haviam abandonado o canal, a MTV chamou a atenção do público com a mais ousada propaganda de incentivo à leitura já veiculada no Brasil: uma tela escura com os dizeres “Desliga a TV e vá ler um livro”, repetidos por um locutor. Na ocasião, o Ibope mostrou que 8% do público desligou, de fato, a televisão após assistir ao comercial. É impossível dizer quantos abriram um livro depois disso, mas o número foi satisfatório o bastante para que os representantes do canal considerassem a campanha um sucesso.

Nove anos depois, a propaganda ainda parece atual. Segundo o IBGE, o brasileiro adulto passa, em média, 2h35 por dia em frente à televisão e dedica apenas seis minutos por dia aos livros. Em vez de elogiar a campanha da MTV, porém, tenho de fazer uma confissão. Assim como 92% dos espectadores do canal em 2004, e a enorme maioria dos brasileiros, eu ignoro com alguma frequência o conselho dado pelo locutor. Pior: já me peguei largando bons livros, entre eles alguns clássicos da literatura universal, para assistir aos meus programas de televisão favoritos.

Fiz isso pela última vez no domingo (29), dia do episódio final de Breaking bad – uma das séries de televisão mais elogiadas pela crítica e cultuadas pelos espectadores. A internet está cheia de reportagens que tentam explicar seu apelo. Eu mesmo já cometi uma. Prefiro poupar o leitor de mais um texto sobre o assunto. Em vez disso, dou continuidade à minha confissão: Breaking bad não é meu único pecadilho. Já abandonei livros temporariamente para mergulhar em dezenas de outros seriados e novelas. Também troquei a literatura por games e vídeos de stand-up comedy. E, talvez a maior de minhas heresias, não vejo mal algum nisso.

Muitos defensores da leitura têm o péssimo hábito de incentivá-la em detrimento de outras atividades prazerosas e populares entre os jovens. “Desligue a TV e vá ler um livro” é apenas uma das frases que eles repetem. “Saia da internet e vá ler um livro”, “largue o telefone e vá ler um livro” e “pare de jogar games e vá ler um livro” são variações desse mesmo conselho. Todas cometem o grave erro de sugerir uma oposição entre o prazer e a leitura. Sabe aquilo que você mais gosta de fazer? Pare e vá ler um livro. Não me surpreende que 92% dos espectadores da MTV tenham ignorado a sugestão do locutor.

No caso da internet e dos smartphones, além de surtir pouco efeito, os conselhos mostram ignorância tecnológica. Há inúmeras formas de ler livros num celular, e a internet é o meio mais rápido e barato de acessar clássicos da literatura. Em vez de ensinar os jovens leitores a encontrar essas obras e incorporar a busca por livros aos seus hábitos digitais, há quem acredite que dizer “saia da internet” é incentivar a leitura.

Os games e a televisão não dão acesso direto a livros. Mesmo assim, dizer que alguém deve largá-los faz pouquíssimo sentido. Não só porque o conselho não será seguido, mas também porque um bom leitor não vive só de livros. Há ótimos textos em games e séries de televisão. Com o sucesso comercial dessas mídias, grandes roteiristas foram descobertos e outros migraram do cinema e da literatura para elas. Um exemplo entre os games é a ficção-científica The last of us, um dos jogos mais elogiados do ano. Vi leitores dedicados e até alguns escritores enlouquecerem por ele. Confesso que não o joguei. Estava ocupado nos últimos meses com o Netflix, que também esconde textos excelentes. Não vou ceder à tentação de elogiar o roteirista Vince Gilligan, de Breaking bad. Todos os críticos culturais do planeta já o fizeram. Prefiro fazer aqui uma menção aos espetáculos de comédia de Louis C. K. e à série House of cards. Não abandonei a leitura completamente nos dias em que assisti a esses programas, é claro. Mas não me arrependi de, vez ou outra, largar um livro para acompanhá-los na televisão.

Em vez de se opor às formas mais populares de entretenimento, as campanhas de incentivo à leitura deveriam aliar-se a elas. Os livros se tornariam muito mais atraentes se fossem vistos como algo similar a outras fontes de prazer. Boas séries de televisão e os games podem ajudar a despertar nos jovens a curiosidade sobre a leitura. Depois disso, eles encontraram tempo para os livros naturalmente, sem que alguém precise mandá-los desligar nada.

Não é preciso procurar muito para encontrar exemplos de como isso pode funcionar. A série de games Bioshock, ambientada num mundo pós-apocalíptico vagamente inspirado nas obras de Ayn Rand, levou milhares de jogadores a ler textos da autora de A revolta de Atlas e discuti-los em fóruns de jogos. As referências a Ricardo III nas resenhas de House of cards são tão frequentes que devem ter apresentado jovens espectadores à obra de Shakespeare. Em Breaking Bad, o livro Folhas de relva, do poeta americano Walt Whitman, é citado repetidamente e tem um papel fundamental na trama.

As livrarias, infelizmente, não se aproveitaram desses fenômenos. Apesar do sucesso de Bioshock e House of cards, A revolta de Atlas e Ricardo III não ganharam destaque nas prateleiras. Há pouco mais de um mês, encontrei uma bela edição de Folhas de relva numa liquidação, soterrada por outros livros rejeitados pelo público. Se os livreiros avisassem aos fãs da série que era aquele o livro tantas vezes citado em Breaking Bad, poderiam vender mais cópias por um preço maior e atingir mais leitores. Mas, para isso, precisariam ligar a televisão.

Copiado de: LivrosePessoas

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